Tendências Acontecem!

Tendências Acontecem!

Como um bando de jovens brasileiros previu o iPhone anos antes dele existir — e foram ignorados por isso.

No começo de 2015 o iPhone foi considerado o produto mais rentável da história do capitalismo ao prover US$ 18 bilhões de lucro no último trimestre de 2014 para a Apple. Em outras palavras, nenhum produto individualmente gerou mais lucro para uma marca em um período tão curto quanto o iPhone. Hoje a Apple continua sendo uma das empresas mais valiosas do mundo e se existe um protagonista nessa história, podem ter certeza, este protagonista é o iPhone. Que este pequeno monolito tecnológico mudou a vida da humanidade não existem dúvidas. Embora as vendas do iPhone estejam começando a dar sinais de desaceleração, a lógica criada e disseminada por ele e suas ‘simulações’ — os conhecidossmartphones — mudou a maneira como nos comunicamos e nos conectamos para sempre. A tecnologia e a humanidade nunca mais serão as mesmas.

Dois anos antes do iPhone ser anunciado ao mundo e mudar toda a indústria de telefonia móvel (e diversas outras à reboque) um grupo de jovens brasileiros tentava convencer, sem sucesso, a toda-poderosa finlandesa NOKIA — líder absoluta no mercado de telefones celulares na época— de que uma grande ruptura aconteceria no seu setor — e mais — estes jovens davam a cara, o peso e o formato dessa grande ruptura. Não sei ainda se o problema foi a idade precoce dos futuristas envolvidos ou a arrogância típica de um líder absoluto de um segmento, mas o fato é que o futuro chegou e o gigante virou pó. Aqui conto uma parcela desta história pela perspectiva de quem a viveu de dentro.

O nascimento de um ícone.

Novo iPhone 7, a última versão do bem de consumo mais bem sucedido de todos os tempos

Novo iPhone 7, a última versão do bem de consumo mais bem sucedido de todos os tempos

O ano era 2005, éramos bem jovens (alguns de nós não tinha nem 20 anos) e já estávamos fazendo pesquisas de comportamento e tendências há dois anos. Ainda estávamos no começo de nossa jornada como empresa, mas já havíamos feito projetos memoráveis com marcas como Unilever e Ambev e agora estávamos há alguns meses trabalhando em um relatório de tendências a ser apresentado para um novo e poderoso cliente: a NOKIA. Este relatório compilava o resultado final de um projeto de pesquisa e co-criação que na época chamávamos de ‘Design Total’. Neste projeto tínhamos o objetivo de mapear as novas tendências de design para aparelhos celulares e enviar um briefing para a Finlândia, onde ficava a equipe central de design da Nokia. Nossas ideias serviriam para esta equipe desenhar alguns novos modelos de aparelhos para a próxima estação.

Os Celulares e a moda.

No inicio da década passada era assim, os celulares eram muito mais objetos de moda do que qualquer outra coisa. Duravam planejadamente cerca de um ano, tanto pelo estilo quanto por sua resistência física e tecnológica. Com isso, as pessoas tinham de comprar um aparelho novo a cada ano. As pessoas, afinal de contas, precisavam estar na moda e a moda naquele momento eram os celulares clamshell — aqueles aparelhos que abrem e fechavam como uma concha ou como o estojo de maquiagem. O que a Nokia queria conosco era exatamente apontar quais seriam as cores e os materiais destes pequenos estojos de maquiagem e se, por acaso, algum novo formato além do clamshell faria sucesso no próximo ano. Como bons jovens obcecados pelo novo e obcecados em entregar um trabalho além da expectativa para os nossos clientes, nós nos dedicamos alguns pontos acima da média para conseguimos mapear com clareza o que estava se passando na indústria de telefones móveis naquele momento.

Em determinado ponto do estudo percebemos que alguma coisa iria mudar radicalmente na indústria. Na verdade, tínhamos certeza. Junto com as respostas esperadas apresentamos como resultado da pesquisa uma série de cinco concept phones (telefones conceitos) que teriam, segundo a nossa visão, sucesso claro num futuro de médio e longo prazo. O último destes cinco modelos não se tratava apenas de uma proposta nova de form factor(termo usado pela indústria para definir literalmente a forma tangível do aparelho) tratava-se também de uma mudança estrutural nos telefones celulares em si e em todo o negócio das fabricantes de aparelhos. Tratava-se de nossa crença mais profunda. Uma verdade que foi emergindo ao longo do projeto e que não tínhamos como deixar de fora de nossas descobertas.

A Previsão Clara.

Na Pesquisa Efetiva de Tendências não devemos ignorar, jamais, nossa crença mais profunda. Devemos, na verdade, aprender a nos conectar com ela. Qual o real destino que acreditamos para o produto que estamos estudando? Qual será, verdadeiramente, o futuro do mercado que estamos imersos? Ou ainda. Se eu fosse o Presidente da empresa e pudesse dar a ela qualquer rumo, para qual direção eu dirigiria a organização em nome dos consumidores? Em nome de criar um produto realmente definitivo? O produto definitivo naquele caso era aquele último concept phone que apresentamos. Ele significava uma mudança no paradigma dos telefones celulares e, por isso, demos carinhosamente a ele o nome de AIKON — que é NOKIA ao contrário.

O AIKON convergia quatro importantes tendências em um único aparelho.

  1. A primeira é a de que ele seria um candy bar. Ou seja, ele seria um telefone em formato barra em um momento onde 85% dos telefones pertenciam ao grupo de design ‘estojo de maquiagem’, incluindo o Motorola Razr que era um fenômeno de vendas na época e um dos maiores sucessos de venda da história da telefonia móvel até ali.
  2. Em segundo lugar, o AIKON seria o mais indestrutível possível. Assim ele não seria trocado todo o ano. Não preciso nem dizer que essa característica torceu o nariz de muitos executivos da NOKIA, mas a ideia fazê-lo resistente o suficiente para que só algumas partes de seu hardware e software fossem atualizados ano a ano nos parecia elegante e conectada como os novos valores de sustentabilidade que apenas começavam a emergir.
  3. A terceira tendência pedia que o AIKON tivesse uma tela touchscreeninteira em uma de suas faces. Nos baseamos no design conceitual do russo Roman Kriheli que havia ganho o Russian Design Innovation Awards em 2005 apresentando um concept phone com uma tela inteiramente touchscreen. Naquela data nenhum aparelho dispunha dessa tecnologia embora, naquele ponto, nos parecesse a evolução óbvia das telas e dos celulares.
  4. A quarta e última tendência que compunha o conceito de nosso telefone era talvez a mais radical de todas. Era a ideia de que a NOKIA, acima de tudo, precisaria se tornar uma empresa de software. A ideia era de que a característica principal daquele telefone seria, na verdade, os programas que operariam dentro dele. Uma boa ideia já que o teclado poderia se moldar de inúmeras formas ampliando as funções do aparelho. Poderíamos transformar as “teclas” do telefone em relógios, music playersjoysticks etc. Era uma ideia mágica. Além disso, a visualização de videos e textos também seria ampliada em muito na experiência de uma tela que tomaria toda a face do aparelho. A única coisa importante era atualizar o software e talvez o hardware de tempos em tempos.
Design de Roman Kriheli campeão do Russian Design Innovation Awards em 2005

Design de Roman Kriheli campeão do Russian Design Innovation Awards em 2005

 

O conceito do AIKON era, portanto, um candybar touchscreen indestrutível cujo o software era seu coração. Esta foi a nossa entrega principal para a NOKIA naquele estudo. Era, de fato, nossa crença mais profunda. Tinhamos tanta confiança naquele caminho que tinhamos a certeza de que um produto semelhante já estava nopipeline de desenvolvimento da NOKIA em algum lugar. Ledo engano. A NOKIA não só estava distante desta visão, como a justificativa de alguns de seus principais executivos para a nossa proposta era a de que aquilo era ficção científica. Defendiam que a tecnologia touchscreen não era boa o suficiente para substituir um teclado tradicional e que o custo para o consumidor final seria tão absurdo que ninguém pagaria por aquilo. Respostas prontas. Hoje entendo que “ficção científica” é a desculpa que executivos sem criatividade dão para projetos ambiciosos de inovação.Também aprendi que na verdade quem vive numa ficção são as corporações que criam verdades para si mesmas pautadas na “ciência” dos números em troca de um ambiente ilusoriamente controlado para que seus executivos façam crescer os tais números enquanto perdem o senso de maravilhamento que geralmente guia o empreendimento da inovação levando todos nós a um novo patamar.

Exatamente um ano depois, em janeiro de 2007, Steve Jobs subiu ao palco em São Francisco para apresentar a maior ruptura da história recente da indústria de telefonia móvel e aquilo que viria a ser o maior ícone tecnológico da era digital: o iPhone. Lembro-me como se fosse hoje. Estava de férias em um resort na Costa Rica quando tomando um drink na beira da piscina olhei a grande televisão no saguão do hotel. Lá estava Steve Jobs no noticiário. Atrás dele, no imenso telão da sala de conferências, um pequeno monolito preto. Minha espinha gelou e fiquei arrepiado. Larguei o drink e fui em direção a televisão. Quando chegava perto e estava começando a entender do que se tratava o noticiário mudou para um campo de batalha qualquer no oriente médio. De noite fui atrás de mais informações na internet. Era a apresentação do primeiro smartphone ao grande público. Um momento histórico.

De qualquer maneira, de uma forma ou de outra, eu sabia exatamente do que se tratava aquele estranho dispositivo atrás de Jobs. Ao mesmo tempo, fiquei melancólico por não fazer parte da construção e do anúncio daquela impressionante invenção que eu, junto com meu time de pesquisa, já sabia que mudaria tudo. As coincidências entre o iPhone e o conceito do AIKON até hoje me inspiram uma espécie de orgulho e uma certeza irrefutável naquilo que é a crença fundamental da BOX1824 e de parte dos estudos que desenvolvi nos últimos 10 anos: Tendências Acontecem!

Steve Jobs apresentando ao mundo o primeiro iPhone no ano de 2007

Steve Jobs apresentando ao mundo o primeiro iPhone no ano de 2007


Texto também publicado no Medium do Autor

Arqueologia do Amor, mais alguns fragmentos.

Arqueologia do Amor, mais alguns fragmentos.

Seguindo com o nosso trabalho na Arqueologia do Amor - que é este delicioso labor de bisbilhotar os arquivos históricos e contemporâneos da humanidade em busca das expressões do Amor Autêntico - eu gostaria de compartilhar um fragmento especial retirado do lindo artigo "A busca pela manifestação genuína do eu" do meu amado amigo Rodrigo Cunha. O artigo trata da Filosofia da Liberdade de Rudolf Steiner e mais para o fim ele, obviamente, envereda pelos caminhos do amor. Seguem então as precisas e preciosas palavras esculpidas nesse belo artigo sobre essa sentimento e força universal.

Land Art por Andreas Amador

Land Art por Andreas Amador

Nunca é demais falar de amor. Aqui não vamos falar da visão romântica de amor, mas de uma visão ampla, conforme entendimento da Grécia Antiga, que o dividia em pelo menos seis variedades:
1. Eros — ligado ao prazer sexual e ao desejo
2. Philia — ligado à amizade ou mesmo ao amor entre pais e filhos
3. Ludus — ligado à afeição divertida entre crianças ou jovens amantes
4. Agape — amor abnegado, estendido à varias pessoas (foi traduzido para o latim como caritas)
5. Pragma — amor maduro entre casais de longo casamento
6. Philautia — auto-amor, dividida entre narcisismo (não saudável) e uma versão mais ligada a segurança. “Se você gosta de si mesmo e sente seguro em si mesmo, você terá amor suficiente para dar aos outros.“Todos os sentimentos amigáveis por outros são uma extensão dos sentimentos do homem por si mesmo.”
Nesta visão ampla, uma ação genuína — que tem a ver com a vontade individual, despertada por um pensar intuitivo a partir da observação pura — se transforma em um transbordamento de amor.
“Amar é um recipiente que quanto mais você esvazia, mais ele se enche.” (anônimo)
Numa relação, é importante observar o outro como uma extensão do eu. Sem o outro, não há um eu. Isso abre um portal de entendimento e diálogo poderoso, pois para compreender você, tenho que absorver os conceitos que  usa para se autodeterminar. Preciso me despir, tirar o filtro, o véu, o piche, até chegar nas ideias comuns. Uma individualidade só é possível se cada individualidade sabe da outra por meio da observação individual.
“A garantia única é que nasci.
Tu és uma forma de ser eu.
E eu uma forma de te ser.
Eis os limites da minha possibilidade.”
(Clarice Lispector)
No limite, o que Steiner propõe é que a liberdade só pode emergir quando o indivíduo se manifesta na sua plenitude.
Toda nossa tradição e passado nos traz amarras: nossa família, país, grupo étnico, religião, trabalho, amigos etc, causam impressões mentais que moldam nosso comportamento. Agir de acordo com este comportamento inconsciente é o oposto da liberdade.
Qual a sua manifestação individual? Qual sua ação genuína no mundo? Somente quando realizamos nosso potencial como indivíduos únicos é que seremos livres. É uma (bela) busca que leva uma vida. E só quando vamos em busca da liberdade é que podemos de fato chegar perto desta liberdade. Meio óbvio. Mas tão óbvio quanto seria a gente parar para pensar no nosso pensar.
No fundo, a busca pela individualidade dentro do todo, é a manifestação da essência do eu. Uma essência buscando a manifestação livre do espírito. Um voo em busca da manifestação genuína e pura num mundo repleto de pensamentos e vontades milenares. O espaço livre do “um” que se manifesta no exterior só emerge a partir do interior. Então, a liberdade é um pulsar infinito de dentro para fora e de fora para dentro.

O que não é o Amor?

O que não é o Amor?

O amor não é algo teórico — embora, em minha opinião, precisemos cada vez mais e mais de teorias e conteúdos que falem e expliquem esse sentimento tão pouco compreendido por nós. Principalmente se levarmos em consideração a sua importância em diferentes aspectos de nossas vidas. O amor merece mais estudo, mais discussão e mais ação. De todo modo, o amor realmente não é algo teórico. Ele é algo prático. Vivo e vivido. Na tela, na alma, na pele. 

Com a meditação é parecido. Muita teoria e muitas ideias sustentam os seus benefícios. Cada vez mais estudos científicos embasam a sua prática. Mas, como a própria palavra diz, a prática é o que importa. Alguns mestres de tradições meditativas antigas têm um dito que define isso muito bem.

Um grama de prática equivale a toneladas de teoria.
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Assim também é no amor. Mas, afinal, o que é o amor? É mistério. Parece sempre que sabemos algo sobre ele, afinal já vivemos algumas coisas nesta vida. Já amamos e fomos amados; alguns de nós, estão amando e estão sendo amados neste exato momento. Mas ainda assim sabemos muito pouco sobre ele. Quase nada. Talvez o mais fácil, por ora, seria tentarmos responder o que ele não é. O que não é o amor? Tentando responder a esta pergunta, traduzo livremente aqui as palavras Krishnamurti, um dos grandes pensadores e espiritualistas da Índia moderna. Livre de tradições, com um pensamento autêntico e uma visão clara sobre assuntos transcendentes, Krishnamurti tem algo relevante para compartilhar conosco acerca do amor, não-amor e meditação:

  

“No espaço que o pensamento cria ao redor de si mesmo, não existe amor. Este espaço divide o homem de si mesmo e ele se torna toda a batalha da vida, todo o vir-a-ser, toda a agonia e o medo desta vida. A meditação é o fim deste espaço, o fim da ideia de “eu” e “meu”. Sob essa luz, os nossos relacionamentos então tomam um outro sentido pois neste espaço, que não é feito pela mente e pelo pensamento, o outro não existe, o “meu” não existe.

A meditação, portanto, não é a busca por algum tipo de visão sacralizada pela tradição. Ao invés disso, ela é o espaço infinito cujo o qual os pensamentos não conseguem penetrar. Para a gente, o pequeno espaço criado pelos pensamentos ao redor deles mesmos — que é o próprio “eu” e “meu” —  é extremamente importante pois é tudo o que a mente se identifica e conhece e o medo de não-ser nasce deste lugar. Mas na meditação, quando isso é compreendido, a mente pode entrar numa dimensão onde a ação é a não-ação. Nós não sabemos, de fato, o que é o amor, pois neste espaço que os pensamentos criam ao redor de si mesmos, o amor é o conflito entre o “eu” e o “não-eu”, entre o “meu” e o “não-meu”. Este conflito, esta tortura, não é o amor.

O pensamento, em si, é a própria negação do amor. O pensamento não pode jamais adentrar um espaço onde o “eu” e o “meu” não existam. Este espaço é a bênção que o homem busca e não consegue encontrar. Ele busca isso dentro dos domínios do pensamento enquanto o próprio pensamento destrói o êxtase desta bênção.

Se você se prepara para meditar, você não estará meditando. Se você se prepara para ser bom, a bondade jamais florescerá. Se você conservar a humildade, ela deixa de existir. A meditação é a brisa que entra quando você deixa a janela aberta; mas se você deixar ela propositalmente aberta e ficar convidando o vento para entrar, ele jamais aparecerá.”

Jiddu Krishnamurti

Jiddu Krishnamurti


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O Silêncio Criativo.

O Silêncio Criativo.

O aprendido é aquilo que fica depois que o esquecimento faz o seu trabalho. 
— Rubem Alves

Vou começar com uma pergunta: existe ainda alguma dúvida de que estamos passando por uma transformação total em nosso planeta?

Para aqueles céticos ou simplesmente desconectados, compartilho este video que mostra a expansão e dispersão da humanidade sobre essa nossa Terra de meodeos nos últimos 2 mil anos. Vale dar uma olhada até o fim do video e veja por você mesmo o que estou falando.

O video aqui nos dá uma dimensão nova acerca do que se trata este momento pelo qual estamos passando — ainda mais se incluirmos, além da camada demográfica, as camadas etnográfica, sociográfica e psicográfica desta expansão humana. Com isso, podemos imaginar um pouco melhor o que este tipo de “nomadismo histórico” do homem impactou e impactará o nosso eco-sistema planetário.

Preste atenção! A transformação é geológica, sociológica, econômica, política e apocalíptica.

Não tem jeito! — e já que é assim, precisamos nesse momento ter muito claro aquilo que nos aterra. Aquilo que nos tranquiliza. Aquilo que nos orienta. Aquilo que nos cura. Aquilo que nos alimenta. Aquilo que nos guia. Aquilo que nos faz ser criativos e criadores! Tudo isso em uma dimensão coletiva e individual ao mesmo tempo. Difícil, né? Mas urgente! Do meu lado, afirmo com a convicção de uma vida (ou pelo menos uma porção bem intensa dela):

Aquilo que mais precisamos para orientar positivamente esta grande mudança planetária coletiva e individualmente é o Silêncio.

Silêncio. Isso mesmo! Esta é a tese. A tese de que apenas o espaço vazio pode receber os padrões inteiramente e autenticamente novos que precisamos para resolver a complexidade do mundo atual cheio de problemas inomináveis e passar co-criar um mundo novo — que para aqueles que conseguem enxergar já está nascendo.

Qualquer outra forma de buscar e inspirar o novo e a inovação tende a se impregnar de material cultural antigo, nos mantendo presos em ciclos de repetições dos mesmos problemas e das mesmas questões. Para um novo mundo, precisamos soluções autenticamente novas e estas precisam estar despidas de paradigmas passados. Repito, não conheço instrumento mais eficiente para isso do que o Silêncio — a.k.a. Meditação.

 

Ser e não-Ser — eis a resposta.

Meditar é como mergulhar num cofre cheio. Cada vez que você vai lá, pega umas moedas. 
— David Lynch

Assim como já relatei aqui em minha própria descoberta deste poderoso silêncio interior e também já apresentei uma técnica cotidiana que pode lhe ajudar a ter contato com ele, pretendo, aqui ajudá-lo a entrar em sintonia, pelo menos um pouco, com aquilo que chamo de Silêncio Criativo. Um Silêncio que, ao invés de entediá-lo, lhe carregará de energia criativa e construtiva para ser lançada ao mundo.

O Silêncio Criativo nada mais é do que o reconhecimento do Silêncio como gerador, como arcabouço de idéias formidáveis prontas para nos ajudar em todas as dimensões de nossa vida. Não há nada mais eficiente do que o Silêncio para o despertar da criatividade autêntica e para que o verdadeiramente novo possa emergir. Muitos criativos de grande calibre tem uma percepção parecida. John Cage, por exemplo, sempre teve um fascínio direto pelo silêncio, mesmo sendo o centro de sua produção a música e o universo sonoro — em verdade o silêncio é o elemento perfeito para se construir uma ponte até o som — essa era sua percepção.

 

David Lynch também tem sua fascinação e cultivo cotidiano deste espaço de Silêncio Criativo. Ele aborda em seu livro “Em águas profundas” (Catching the big fish) uma importante metáfora nessa direção:

Se você quer pegar um peixinho, pode ficar em águas rasas. Mas se quer um peixe grande, terá que entrar em águas profundas.
 

O que Lynch quer dizer com isso? Que a meditação, ou o contato sistemático com o silêncio interior, é uma ferramenta poderosa para entrarmos em contato com dimensões de nosso ser que são inacessíveis de outros modos. O livro de Lynch, que é uma apologia à meditação, é um pequeno e belo tratado inspiracional sobre porque e como “treinar” sua mente para atingir esta criatividade autêntica através do contato com o silêncio. Ele mesmo treina esse contato por, pelo menos, 20 minutos ao dia. Lynch tem feito isso sem perder um dia sequer há mais de 40 anos! 

 

Além desta prática pessoal, o diretor tornou-se um dos principais ativistas da meditação no ocidente e defende a prática da Meditação Transcendental como forma de sucesso pessoal e transformação planetária através de seus testemunhos pessoais e de sua David Lynch Foundation.

 

O Silêncio Criador e o Silêncio Criativo.

Trata-se de um poder criativo profundo que o vazio impõe sobre nós. Ser e não-ser — estas são as duas faces de uma mesma moeda. Acredito que é esta liberdade imposta pelo Silêncio que nos orientará à nova fase de desenvolvimento humano, individual e coletivo e de uma Cultura Planetária mais integrada. 

Mesmo a busca por uma estética do silêncio ou da ausência positiva— mostra o atual interesse de nossa cultura contemporânea pela dimensão da não-existência, do silêncio e do vazio. Não o vazio vazio, mas o vazio cheio. O vazio pleno da perspectiva budista — a mente de clara luz — cheio de sentido e poder criador. O vazio que inspira espaços novos cheios de riquezas advindas de uma nova linguagem e entendimento. O entendimento que transcende a separação entre entre ação e não-ação, entre o tudo e o nada, entre a vida e a morte. De novo, são faces de uma mesma moeda.

Este é um princípio culturalmente fresh mas historicamente antigo — nos remetendo a conhecimentos e culturas ancestrais como a linhagem filosófico-espiritual do Advaita Vedanta da Índia antiga que prega a não-dualidade e a unidade. Este princípio remete também a conceitos de novas teorias que explicam a realidade num contexto de interdependência entre tudo como sugere a Teoria Integral de Ken Wilber, a visão de Unidade Sagrada de Gregory Bateson ou ainda teorias que sondam a possibilidade lançada por Eistein do Campo Unificado como a Teoria da Supercordas.

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A revolução começa dentro de nós, no nosso espaço interior íntimo e se expande, gradual e continuamente, para o mundo exterior. Esta é a revolução que, como raça, viemos aguardando há séculos e nós estamos próximos a protagonizá-la. Uma revolução silenciosa, a Revolução do Silêncio.

 

 

Tao Te King — Canto XXXVII

Tao Te King — Canto XXXVII

 

 
O Tao é um eterno não-fazer,
e mesmo assim nada fica sem ser feito
Se os príncipes e os reis do mundo souberem como preservá-lo,
todas as coisas se farão por si mesmas
Se elas se fizerem por si mesmas, provocando a cobiça
eu as desterro pela simplicidade que não tem nome
A simplicidade que não tem nome gera a ausência de desejos
A ausência de desejos cria a serenidade
e o mundo se endireita por si mesmo
 

 
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Maria Abramovic.

Maria Abramovic.

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Marina Abramovic sempre desafiou os limites do corpo e da arte. Como o personagem que levou a arte de performance aos grandes museus e às grandes galerias, ela tem seu lugar garantido no hall dos maiores artistas do Século XX e início do Século XXI. Ela conseguiu o feito de colocar o corpo na posição de obra e a presença na posição de arte - e isso não é pouca coisa. Levou isso às últimas consequências. Seu derradeiro trabalho “The Artist is Present” é um statement que atingiu concomitantemente uma dimensão conceitual e popular que poucos momentos da história da arte foram capazes de conjugar. Sentada por dias inteiros em um salão no MoMA, pouca coisa além de sua presença, se colocava na frente do espectador. Uma aura quase espiritual tomava o processo que alimentava filas enormes em torno da performance. Sem sketch, sem objetos, sem movimento, só a presença. Trata-se de uma mestra — e como um bom mestre, quando Marina chegou neste limite ela ela olhou um pouco mais além.

Depois de oferecer sua pura presença como obra aos espectadores em 2010, Marina transcendeu o corpo e passou a fitar aquilo que é descorporificado, aquilo que está além, aquilo que pertence não à dimensão da presença física, mas aquilo que pertence à dimensão espiritual. Nessa nova fase Marina reencontrou o Brasil. Parceiro afetivo de longa data, o país é para a artista um repositório infinito de idéias, sentidos e sentimentos.

Cartaz do filme The Artist is Present, 2012

Cartaz do filme The Artist is Present, 2012

 

Brasil: Potência da Nova Espiritualidade

Esta transformação de Marina foi muito bem captada pelo documentário Espaço Além (Space in Between) — recentemente lançado aqui em São Paulo com a presença da própria artista. No filme, ela passa por uma imersão em diferentes linhas de trabalho espirituais autenticamente brasileiros — fenômenos que nasceram no solo fértil de nossa cultura interior. Lá vemos o retrato e a rota de um Brasil profundo, absolutamente necessário para o mundo hoje e também para o próprio Brasil. Em uma época crítica como a que estamos vivendo, o filme retrata um “Brasil interior” que precisa vir “para fora”, remontando um retrato e uma rota que, ao meu ver, revelam a verdadeira potência e a verdadeira vocação de nossa nação: a de ser um centro nervoso da nova espiritualidade e da nova religiosidade mundial.

Outros pensadores e agitadores culturais também vêm nos atentando para essa vocação do Brasil – a de “superpotência da espiritualidade” —  como revela o texto “Potência Espiritual” de Ronaldo Lemos publicado há algumas semanas atrás em sua coluna na Folha.

 

Maria estrangeira

Marina chegou numa encruzilhada da vida, da arte e da cultura humana. Quando chegou neste ponto, Marina fixou seus olhos no Brasil e, neste ponto, Marina virou Maria. Entidade viva do mundo da arte, como peregrina intuitiva se fez como uma entidade de nossa própria cultura, revelando a alguma parte da elite cultura brasileira uma ponte óbvia entre a arte e a espiritualidade autêntica da nossa terra. Pr isso Maria. Uma Maria estrangeira que precisa, mais uma vez, vir de fora de nosso contexto para apontar com precisão nossas riquezas. Mas não é apenas o dedo apontado para o coração de nossa nação que é o valor desta Maria, mas também o dedo apontado para o fragmento esquecido da obra de arte. Marina, com ajuda do "espírito brasileiro", chegou no ponto de perceber que a arte, assim como qualquer outra dimensão que tem o poder de “criar objetos” (como a própria ciência ou o próprio mercado) não acontece fora, mas dentro. Que a dor do objeto é apenas o despertar da consciência e uma Maria transcende a dor transcendendo a separação.  

Anteriormente, Marina, contribuiu para a história da arte com sua própria história artística ao nos fazer perceber que não apenas o objeto é a obra, mas que o processo e o artista em si também o são. Agora, como Maria, ela adentra a dimensão real dos domínios de nossa geração pós-contemporânea revelando, conjuntamente com vários outros artistas e agentes da cultura, a compreensão de que a obra está além do objeto, além do processo e além do criador. A obra é, também, o espectador. Essa integração e o entendimento de todas essas dimensões concomitantemente como criadoras da obra integral é o que podemos chamar também de espiritualidade. Em outras palavras: o espiritual e o pós-contemporâneo comungam a diversidade na unidade e a unidade na diversidade. Isso é espiritualidade. Isso é arte pós-contemporânea.

Cena do filme The Space in Between de Marina Abramovic produzido e filmado no Brasil

Cena do filme The Space in Between de Marina Abramovic produzido e filmado no Brasil

O Espectador e a caverna da Consciência

Marina reforça com isso não apenas um conceito absolutamente importante para a arte contemporânea, mas para a humanidade em si. Ela vislumbra este caminho em seu filme e encontra em nosso país o eco seminal e autêntico dessa jornada. Já na posição de entidade do mundo das artes, ela aponta o Brasil e a espiritualidade como soluções para a sua encruzilhada. Sendo o artista a antena da raça, como dizia Baudelaire, devemos nos antenar para estes sinais. Nos tornando também antenas. A arte somos nós.

Vemos pelos caminhos “errantes” de sua jornada espiritual nesse Brasil diverso que Marina é, como xamã e espiritualista, uma buscadora iniciante. Mas na dimensão da Arte é uma Mestra — e essa mestra-Maria, ao encontrar o espectador, a espiritualidade e o Brasil como respostas para a sua encruzilhada pessoal, nos deixa um sinal importante para o futuro da arte e para o nosso futuro: o sinal de que as respostas para a evolução de nossas relações com o mundo está na Consciência — esta caverna profunda e insondável, mas mágica e poderosa. Este ponto onde a física cartesiana sonha através da física quântica, o ponto onde a arte contemporânea começa a florescer no pós-contemporâneo.

Na última cena do filme Marina adentra uma caverna profunda e magnânima (talvez a própria caverna da Consciência) e ali acaba seu filme e sua transmutação através da fala profunda que é comum a todas as crianças e a todos os verdadeiros os artistas: 

“Agora, eu vou explorar!”


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